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Segunda-feira, 8 de Novembro de 2010
O islão delas não é só para homens

As muçulmanas mais influentes da Europa não são mulheres submissas e oprimidas. Religiosas ou laicas, elas valorizam a liberdade, a educação e a ousadia de correr riscos e quebrar tradições. Usar o hijab, diz uma delas, significa apenas “cobrir a cabeça, não esconder as ideias”.

Khadija e Mariame Tighanimine, as irmãs de Hijab and the City Khadija e Mariame Tighanimine, as irmãs de Hijab and the City (Rui Gaudêncio)
Suad Mohamed: A imã livre da Suécia

Em 1985, aos 16 anos, quando chegou a Estocolmo, vinda da sua Etiópia natal, Suad Mohamed ficou fascinada ao ver grupos de punks nas ruas. “Se eles exibiam aqueles cabelos excêntricos, eu também poderia usar o meu hijab”, disse a primeira imã (líder espiritual) da Suécia — um título que não é reconhecido oficialmente nos países islâmicos.

Ainda assim, não foi fácil. Já naquele tempo, antes de a extrema-direita xenófoba estar em ascensão, uma funcionária de um supermercado foi instruída pelo patrão a não atender Suad Mohamed se esta não retirasse o lenço que lhe cobria a cabeça. O episódio entristeceu-a, mas não modificou a sua opinião sobre o país que a acolheu.

“Desde que cheguei à Suécia que me deixei seduzir pelo modo como a sociedade trata as mulheres”, diz-nos a imã, sentada numa poltrona de um hotel de Madrid, cidade onde, a 30 de Outubro, decorreu a gala que elegeu — pela primeira vez — as dez muçulmanas mais infl uentes da Europa. Ela fazia parte de uma short list de 26, seleccionadas pela CEDAR, uma rede pan-europeia de profissionais muçulmanos, mas ficou ausente do top 10. Não ficou incomodada, até porque a amiga Barni Noor, uma jovem de origem somali que é presidente da Associação das Mulheres Muçulmanas da Suécia, foi uma das dez escolhidas.

Suad Mohamed estava mais preocupada com o regresso a casa, e a noite já ia longa quando esta entrevista começou. Compreensível, portanto, que a voz doce se arrastasse, o sorriso perdesse luminosidade e os formosos olhos — característicos das mulheres etíopes —, ornados por um eyeliner negro, denunciassem fadiga. O dia tinha sido de muita ansiedade mas, ainda assim, a imã mantinha o porte altivo, numa longa túnica e manto negros, com bordados brancos e brilhantes, a combinar com o hijab que, bem justinho ao queixo e à testa, não deixava vislumbrar uma melena.
Quando se fala da Suécia, Suad parece esquecer o cansaço. “Aqui as mulheres são livres. Eu gosto desta liberdade individual. Da capacidade que cada uma tem de fazer as suas escolhas pessoais, de tomar as suas próprias decisões. Foi muito bom para mim —, porque esta é a liberdade que o islão e o Corão me oferecem. Gosto da minha religião, mas não aprecio algumas tradições que impedem as mulheres de agir de sua iniciativa. Olhei para as mulheres suecas como exemplo — absorvi o que gostava nelas; recusei o que não me interessava. Construí desta maneira a minha identidade.”

Ser muçulmana na Europa, acredita Suad Mohamed, fez dela uma pessoa diferente. “Em Marrocos ou na Arábia Saudita, as mentalidades não mudaram. Eu sou muito europeia, mesmo que a minha aparência física não o indique. Os meus filhos são ainda mais europeus do que eu, porque eu nasci na Etiópia mas eles já nasceram na Suécia. Eles são religiosos, por opção, e orgulhosamente suecos. Sou grata por a Suécia ter feito de mim uma mulher livre — não é fácil ser africana, muçulmana e imigrante.”

Suad foi viver para a Suécia, em busca de uma vida melhor, porque já aí se encontrava o seu irmão. Não teve grandes dificuldades de integração e explica porquê: “Falar a língua é a chave, porque quando falamos a língua do país que nos recebe estamos a comunicar, aprendemos os códigos da sociedade. Se não aprendermos — e foi isso que aconteceu com os meus pais —, seremos sempre outsiders. Viveremos como imigrantes isolados.”

Da Suécia, onde fez estudos superiores “para ser professora”, Suad foi para a Universidade de Zarka na Jordânia onde se formou em Shariah, lei islâmica. Quando voltou a Estocolmo, em 2002, deu uma entrevista ao jornal Kyrkans Tidning, órgão oficial da Igreja Protestante sueca [separada do Estado], e foi assim que ganhou o título de imã. “Que coisa extraordinária, não?”, comentou ela, divertida e briosa. “Na realidade, até para mim, tem sido difícil assumir-me como imã.”
Interpretação feminina

Entre os cerca de meio milhão de muçulmanos da Suécia, “uma comunidade com diferentes grupos de diferentes países”, nem todos reagiram bem — “as mulheres resistiram mais do que os homens” — a que Suad ostentasse o título de imã. “Para mim, um(a) imã é um(a) líder”, enfatiza. “E as mulheres muçulmanas podem ser imãs — porque o islão o permite. Se uma mulher lidera a oração, o que devemos chamar-lhe? Imã, respondo eu. Uma líder ouve os fiéis, educa-os sobre o islão, sobre os seus direitos e deveres — porque até agora a interpretação dos textos sagrados tem sido feita só pelos homens. É a perspectiva masculina que tem predominado. Isso não é bom. O islão não é apenas para os homens.” Suad não lidera orações — excepto se a congregação for totalmente feminina. “A minha função centra-se sobretudo na participação em actividades religiosas da comunidade. Claro que gostaria de ver os irmãos e as irmãs [como os muçulmanos se referem uns aos outros] lado a lado e não segregados nas mesquitas. Mas a minha prioridade não é liderar a salat [preces] e sim a educação das mulheres. Encorajá-las a seguirem o seu caminho. Ajudo-as a saber usar a educação para não dependerem do islão dos homens.”

Como é que esta figura de baixa estatura mas fortes convicções marca a diferença? “Bem, quando as mulheres têm problemas com as suas famílias, com os maridos, quando não são tratadas com igualdade, eu ajudo-as com uma interpretação mais feminina do Corão e das hadith”, responde. “Por exemplo, muitas mulheres têm medo de se divorciar. Não é uma coisa boa, mas se tiver de ser, será. No entanto, causa das tradições, muitas ainda têm medo dos familiares, dos amigos. A decisão final é sempre das mulheres. Eu aconselho-as, e encorajo-as, porque o islão permite o divórcio. As mulheres não têm de viver para sempre uma relação infeliz.”
Foi o que fez a própria Suad. “Divorciei-me do pai dos meus filhos (uma rapariga de 22 anos, um rapaz de 20 e duas gémeas, de 16) e voltei a casar-me. Já era imã quando me separei, mas não foi essa a razão da ruptura. O divórcio não foi litigioso. O meu primeiro marido também se voltou a casar e tem outros dois filhos. Damo-nos todos bem. Muitos estranharam o meu divórcio, por eu ser muçulmana, mas é normal porque sou um ser humano e porque a minha vida tem sido passada a quebrar tradições. Se o meu actual marido não me aceitasse como imã, eu não estaria com ele.”

Em casos de divórcio, o que conta é a lei sueca, esclarece Suad. No entanto, no caso das muçulmanas, é necessário ter também um certificado de acordo com a Shariah. “Muitas mulheres não se sentem confortáveis sem este documento e, nos países islâmicos, sobretudo no Médio Oriente, sem ele não podem casar-se novamente, porque o divórcio não será reconhecido.”

Suad não tem poder de emitir estes certificados, apesar de formada em Shariah. “Ainda não cheguei tão longe”, graceja. “Como imã, estou apenas a dar os primeiros passos. Ainda me encontro na fase em que se discute se devo usar o título de imã. Alguns membros da comunidade mostraramse muito, muito furiosos. Gerou-se um grande debate, mas quando lhes pergunto como designam uma mulher que lidera a salat [oração], eles admitem que é ‘imã’.”

O poder de emitir fatwas, éditos religiosos, também não interessa a Suad Mohamed. “Não possuo o saber e a experiência necessários para emitir uma fatwa”, admite. Contudo, quando chega a hora de falar sobre a capacidade de interpretar os textos sagrados, ela não hesita em puxar dos pergaminhos: “Sei ler árabe, sei ler o Corão, sei ler as hadith [tradições do tempo de Maomé], sei fazer a tafsir [exegese corânica
— processo de explicar, interpretar e comentar os mandamentos do livro sagrado do islão.] O árabe é a língua que melhor domino!”

Isto é uma guerra

Por comandar este domínio religioso, jurídico e linguístico, Suad garante que “a igualdade entre homens e mulheres está reconhecida em muitas hadith e no Corão”. E avisa: “Haverá quem interprete os textos de uma maneira injusta para com as mulheres, mas eu posso provar que não é verdade. Há muçulmanas que se queixam de que o islão é injusto com elas. Mas como podemos acreditar em Deus se achamos que Deus só é justo com os homens? Há mulheres que recusam a minha perspectiva feminina dos textos sagrados. De certo modo, até as entendo. Nunca tiveram liberdade de pensar. São muito dependentes. Não conseguem escapar do espaço em que foram confinadas. Não é fácil ser livre. É preciso quebrar tudo o que nos acorrenta, sejam os pais, os maridos, os amigos. É como se fosse uma guerra. Se não formos fortes, não sobrevivemos.” “Eu quero mudar a comunidade muçulmana, quero que ela se sinta integrada”, promete Suad. “Por isso, aceito convites para falar nos media e, recentemente, até participei na gay pride parade, em Estocolmo. Dei uma palestra sobre sexo e homossexualidade no islão. Um jornal deturpou o que eu disse e recebi muitas mensagens de protesto, porque este é um tema sensível. A homossexualidade não é aceite no islão mas eu, como sueca, tenho de a respeitar — não tolerar —, mas respeitar”, esclarece. “Se alguém escolher ser assim, tudo bem, mas o islão não permite. Não me peçam para aceitar ou dizer que o islão permite a homossexualidade, porque ser homossexual é haram (proibido), não é halal (permitido). Ser homossexual é uma escolha; não se nasce assim. Muitos tornam-se gays e lésbicas depois de terem sido heterossexuais. Um homossexual pode ser muçulmano, mas está errado segundo o islão. É o mesmo queum muçulmano que bebe álcool ou que mata. Está a agir de forma errada; a fazer coisas de que Deus não gosta.”

Antes de nos despedirmos, perguntamos a Suad Mohamed se ela sabe que a palavra Imâm está relacionada com o termo umm (mãe), segundo explicou Halima Krausen, uma convertida ao islão, oriunda de uma família de protestantes e católicos da Alemanha, e que ostenta, na mesquita de Hamburgo, o mesmo título da etíope-sueca. Esta confessou o seu desconhecimento e também gostou de saber que a raiz árabe de Imâm é amma, com os significados de “estar à frente, liderar, avançar”.

Khadija e Mariame Tighanimine: As irmãs de Hijab and the City


Na Casa Árabe, em Madrid, onde um júri elegeu, à porta fechada, as dez muçulmanas mais influentes da Europa, o distinto lenço prateado de Mariame Tighanimine destacava-se entre os convidados para esta iniciativa sem precedentes. Aos 23 anos, ela brilhava tanto quanto o ecrã do seu telemóvel no qual twittava freneticamente. Ao seu lado estava a mais discreta Khadija, a irmã de 30 anos com quem fundou, em 2008, a webzine Hijab and the City.

Mariame vestia uma longa saia azul até aos pés, camisola preta e um casaco de malha; Khadija, uma blusa de seda branca, uma saia comprida de onde espreitavam os sapatos e um lenço tão negro quanto as suas sobrancelhas espessas. Quando saíam para o luxuoso Hotel Wellington, onde decorreu a cerimónia de entrega dos prémios — elas integravam a short list de 26 nomes —, responderam aos elogios à elegância de ambas numa uníssona gargalhada, apontando para as suas roupas entretanto ocultas por elegantes sobretudos: “Mas isto é tudo da Zara, da H&M e da La Redoute.”

Foi à Zara que Mariame e Khadija foram comprar bandanas para tapar o cabelo, quando a França proibiu, em 2004, a ostentação pública de símbolos religiosos. Mariame, a mais arrebatada, explica-nos em francês: “Confrontadas com a interdição, não podíamos deixar de viver. Por isso, foi natural irmos a uma loja comprar algo que substituísse o hijab, que pode usar-se de maneiras diversas.”

E porque usam elas o véu? É um símbolo religioso? É moda? Khadija, a mais serena, responde-nos em inglês: “Usamos o hijab porque temos convicções e fomos educadas numa família religiosa muçulmana. O hijab é parte da nossa identidade islâmica. Faz parte do modo como exprimimos a nossa espiritualidade, a nossa relação com Deus. É uma parte de nós, embora eu e Mariame não tenhamos a mesma definição do hijab, nem as mesmas motivações.” Mariame, que na sua página do Facebook tem como religião “zoroastra”, esclarece: “Sempre recusei dar explicações para o facto de usar o hijab, porque quando me colocaram essa questão pela primeira vez fizeram-no de uma forma muito violenta. A razão por que uso, e uso-o desde pequena, tem evoluído ao longo dos tempos. Não posso apontar uma única razão — mas garanto que não foi uma imposição.”

Khadija adianta: “Não concordo que o hijab deva ser imposto pelos homens — isso faz parte de uma interpretação machista da religião. Não podemos dizer que Deus é injusto, porque no islão há igualdade entre homens e mulheres.

Não é por eu querer ser discreta ou para agradar aos homens que uso o hijab — nada disso! Isso é um dos habituais clichés, que infelizmente predominam.” Quando usam o hijab, estão a exibir a vossa religião. Têm de mostrar que são muçulmanas? Khadija replica: “Bem, todos somos diferentes; eu uso um véu, outros usam uma cruz, outros envergam uma T-shirt de Che Guevara, outros têm um look gótico, outros exibem-se como metrossexuais. Nós queremos ser nós próprias, ainda que, em alguns países, alguns tenham dificuldade em aceitar-nos como cidadãos normais. O hijab é parte da nossa identidade. Não seguimos regras.” (cont)
 
Fonte Publico Online
sofia s.
publicado por Re-ligare às 12:13
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2 comentários:
De Ze a 12 de Novembro de 2010 às 00:51
A roupa nelas é para não serem molestadas.
mas isso é chamar agressores e criminosos aos não muçulmanos.
De Ana a 1 de Janeiro de 2011 às 22:17
As freiras também chamam chamam criminosos aos cristãos por usarem as suas vestes??

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